A comunicação em inglês é um dos temas mais frequentes no meu feed do LinkedIn. Quase todo dia alguém critica a exigência de inglês fluente para funções em que isso não seria necessário, de acordo com a opinião do autor da crítica. Sempre há muitas pessoas que concordam e acham um absurdo, e sempre há algum comentário de alguém que relata ter investido muito tempo e muito dinheiro em cursos de línguas, sem atingir a almejada fluência.
É evidente que há exageros, que acabam usando o inglês mais como uma linha de exclusão. Também é verdade que há pessoas que têm mais facilidade para dominar um novo idioma do que outras. Mas não resta dúvida quanto ao fato de que o inglês tem sido a língua internacional “padrão”, papel que em outras épocas históricas foi do francês ou do latim.
Eu tenho trabalhado em times internacionais desde sempre. Se consegui atingir um bom nível de conforto (atenção para a palavra que eu escolhi usar), inclusive para viver e trabalhar no exterior, eu testemunhei centenas de situações em que o domínio do inglês transformou-se em um ponto de desenvolvimento para liderados ou para colegas. Estas situações me sugeriram estratégias diferentes das que se vê por aí. Quem normalmente fala sobre isso são os especialistas em idiomas ou pessoas que falam inglês de forma nativa. Isso absolutamente não é o meu caso, e por isso resolvi escrever este artigo para falar de seis estratégias que eu aprendi e que podem ajudar você, ou ajudar você a ajudar alguém.
Este é um problema universal
A primeira estratégia é conscientizar-se de que este não é um problema dos brasileiros, mas mundial. É verdade que no Brasil a proporção de pessoas que falam inglês é mais baixa do que em outros países, e que a necessidade de frequentar cursos pagos acaba sendo um fator de exclusão e de injustiça social. Nós deveríamos corrigir estes problemas.
Mas isso não quer dizer que os brasileiros falem um inglês pior do que nativos de outros países. Talvez seja possível definir um ranking das línguas mais difíceis para aprender, e minha visão de leigo é que as línguas latinas como o português, cheias de nuances, exceções e fonemas que não existem em outras línguas devem ser até mais difíceis do que o inglês.
O recado é o seguinte: se o seu interlocutor não é um nativo em inglês, ele também passou (ou está passando) pelo mesmo aprendizado que você. Ajuda saber que o problema não é só seu. O que me leva à próxima estratégia.
Quem está fazendo o esforço para se comunicar?
Qual é a sua reação quando um estrangeiro tenta falar português? Se você é como eu, vai se sentir até agradecido pelo esforço. Vai procurar ajudar, sugerindo palavras e fazendo perguntas, se algo não ficou claro. E ao fim da conversa, não vai lembrar do diálogo com um tom crítico. Quando acontece o contrário, muita gente acha que seus erros seriam ridicularizados, que seria uma falha do brasileiro, que o profissional teria “obrigação” de falar bem inglês. Eu acho que isso é uma visão incorreta e pessimista, e um pouco auto-depreciativa. Se o seu interlocutor pensa desta forma, a questão linguística é só um problema secundário.
Por uma razão muito lógica: quem é que está fazendo o esforço para que ocorra uma comunicação entre profissionais de países diferentes?
Se o interlocutor é um nativo em inglês, é claro que o esforço é do brasileiro. O nativo em inglês teve a sorte de nascer em um país que fala o mais próximo de uma língua universal, e está tendo o bônus de ver alguém se esforçando para se comunicar na língua nativa dele. Se havia a opção de escolher onde nascer, não me avisaram. O mínimo que se espera é que o sortudo se comporte de forma colaborativa e positiva.
Se o interlocutor não é um nativo em inglês, eu já falei na estratégia anterior: ele passou ou está passando pela mesma situação que você, o que faz a empatia aparecer mais facilmente. Afinal, são dois profissionais que estão apenas tentando usar um código comum para a comunicação, e que mais naturalmente vão entender que o esforço tem que ser compartilhado.
Por mais fluente que a pessoa seja, sempre haverá dificuldades
Em vez de fluência, é melhor concentrar-se em ter conforto na comunicação. Porque, sinceramente, sempre será possível melhorar e muita coisa ultrapassa o simples estudo da língua. Então é melhor deixar de buscar o horizonte e valorizar o caminho que você já deixou para trás.
Considere por exemplo uma sessão de feedback: será provavelmente necessário escolher palavras com um enorme cuidado em qualquer língua, e fazer isso em uma língua estrangeira é um dos maiores desafios pelos quais passei na minha carreira. E mesmo com fluência na língua, será necessário uma preparação muito mais intensa, especialmente se estivermos falando de uma situação complicada de feedback.
E mesmo a máxima fluência não vai te livrar de situações difíceis. Eu sempre conto a história que vivi, anos atrás, ao alugar um carro em Lisboa. Sou nativo em português, é claro, mas os lisboetas falam tão mais rápido que nós brasileiros, que eu fiquei a cinco segundos de pedir para a atendente da locadora falar em inglês…
Você é a pessoa mais bem preparada
O inglês é uma de muitas questões em jogo numa reunião ou num encontro. E se você precisa participar, não será para fazer um teste de língua estrangeira, mas por aquilo que você faz, fez ou sabe. Mesmo se for para substituir alguém, sempre será porque você é a pessoa mais indicada para a missão. Concentre-se nisso, e prepare-se para a reunião. Pense nas principais mensagens que você precisará emitir, nas respostas às perguntas mais prováveis e prepare-as com antecedência. Prepare alguns slides, mesmo que você não esteja escalado para uma apresentação: você poderá usá-los de várias maneiras, e ter um material assim vai servir de apoio psicológico.
Peça o esforço da outra pessoa
Não tenha vergonha de pedir a colaboração do outro. É seu objetivo, mas também do interlocutor, que a comunicação se estabeleça.
Assim, peça que o interlocutor registre os principais pontos, decisões e ações da reunião. Prefira que sejam usados slides, o que facilita o entendimento, e peça que o material seja enviado previamente para que você se prepare. Se não entendeu, peça que o interlocutor repita ou peça que fale mais lentamente. Peça autorização do interlocutor e grave a reunião.
Você quer estar num ciclo virtuoso ou num ciclo vicioso? Aprenda a rir de si mesmo
Há pouco falei em busca de conforto e não de fluência. Isso é extremamente importante, porque a ansiedade e a falta de autoconfiança são barreiras extras, e enormes. Estar mais tenso do que o normal vai atrapalhar você. Fique calmo, não precisa se livrar da pergunta. Pense alguns segundos antes de responder. Não se preocupe com pequenos momentos de silêncio. Beba um gole de água enquanto pensa.
Se ficar nervoso atrapalha ainda mais, estar calmo e neutro ajuda muito. Isso faz com que você esteja mais presente, e consciente do que poderia ter sido melhor. E os erros são importantes, veja graça neles. Você vai se lembrar deles mais tarde, quando seu inglês estiver melhor, e eles vão ajudá-lo a constatar o quanto você melhorou.
Na Zinneke nós podemos ajudar sua empresa a navegar por estas e outras questões dos times internacionais e do desenvolvimento das pessoas e das organizações. Fale conosco.
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Eduardo Rocha fala inglês e francês, mas fica mais à vontade mesmo usando o português. Fundou a Zinneke porque empresas e consultores tem dificuldades em se comunicar, mesmo falando a mesma língua.
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